Considerações sobre Jornalismo online e o leitor 2.0
Seminário promovido pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano debate o futuro da atividade na internet; entre os desafios está a convergência das redações e a maneira de lidar com o usuário e seus comentários publicados nos sites dos jornais, nem sempre politicamente corretos.
Veículos de diversas partes do mundo estão correndo atrás do tempo e procurando adaptar a atividade online ao cenário 2.0, no qual o usuário assume um papel cada vez mais participativo. É assim que o americano John Burke, do World Editors Forum, grupo ligado à Associação Mundial de Jornais, analisa o momento atual do jornalismo na internet. “Cinco anos atrás, muito se falaria sobre colocar o noticiário publicado no impresso no site. Hoje, os jornalistas continuam trabalhando da mesma maneira. Quando as redações finalmente se deram conta de que a internet é algo realmente muito importante, elas se apressaram para atender seu público de maneira mais adequada. Mas, de um modo geral, os jornais estão muito atrás do usuário”, disse.
Burke é um dos profissionais convidados pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), presidida pelo escritor Gabriel Garcia Márquez, para o seminário O futuro do jornalismo na internet e a profissionalização da redação online, que acontece em Bogotá até esta quinta-feira, 6. O evento, que também é promovido pela Corporação Andina de Fomento (CAF), com apoio do Google, reúne jornalistas da América Latina e da Europa para debater o que se produz atualmente para a web, como integrar os profissionais das redações tradicionais às demandas dos novos tempos fazendo uma convergência adequada, os dilemas do jornalismo online e de que modo enriquecer a atividade com qualidade e rigor sem ferir a ética jornalística e sem deixar de lado a agilidade que o meio exige.
Na primeira rodada de debates, o professor e jornalista colombiano Javier Dario Restrepo, um veterano e premiado representante da imprensa daquele país, declarou que a ética que valeu a Gutenberg é a mesma para o jornalismo online. Ele apontou as debilidades, as vantagens e as exigências da prática do ofício no ambiente da web.
Uma das críticas é que, se o jornalismo é entendido como um meio para aquisição de conhecimento, então o que se tem atualmente é um rio caudaloso de informações, mas com escassez de conhecimento. Restrepo, professor da FNPI, refere-se ao excesso de dados disponibilizados na web que não tem fonte segura e à falta de credibilidade de itens publicados, por exemplo, em serviços como Wikipedia. “A informação digital não é totalmente certa. A internet é como um mercado popular, povoado de ruídos dos mercadores querendo vender seus produtos”.
Outro palestrante, o chileno Andrés Azócar, professor e diretor da Escuela de Periodismo de La Universidad Diego Portales e criador do museu da imprensa chilena, observou que para o exercício da ética jornalística no mundo 2.0 é preciso levar em conta que os não-profissionais são os soberanos da internet. Entre os dilemas que apontou estão: velocidade versus veracidade (“Os jornalistas não deveriam encarar a velocidade como um risco, mas como oportunidade”), jornalismo administrado versus jornalismo cidadão (“Há muitas informações de qualidade que são produzidas por pessoas que não são jornalistas, mas que estão em contato com a notícia”) e o controle da ética pelos meios ou pelo público. Na opinião de Azócar, quem detém esse controle, no final, é a própria audiência do site ou do blog de notícias. “O público tem bom senso”, argumentou.
Moderar ou não comentários dos leitores?
A questão, no entanto, não é unânime. Um dos painéis mais debatidos foi exatamente a moderação ou não da postagem de comentários dos leitores nos sites dos veículos. O problema mais sensível é a publicação de termos ofensivos, racistas e preconceituosos. Para a colombiana Maria Teresa Ronderos, professora da FNPI para a área de cobertura de noticiário político e social, é preciso dar liberdade ao usuário. Ela não concorda com o controle sobre a publicação dos comentários. “O leitor deve ter o direito de até falar mal do presidente da república no site e não em seu blog pessoal. Porque o que ele quer é o alcance de um site de notícias”.
Outros especialistas, no entanto, alegam que muitos posts - sejam a respeito de política ou de futebol - partem para a injúria ou mesmo incitam a violência e que, no final, o veículo pode ser responsabilizado juridicamente pelos comentários. Embora não tenha havido um consenso, o que mais se ouviu foi a defesa do estabelecimento de “regras do jogo” claras para os leitores. Em algumas publicações, utiliza-se um software para filtrar termos inadequados. Há quem exija um cadastro, com identificação do usuário que quiser fazer um comentário. E existe mesmo, em algumas redações, a função de ler, filtrar e publicar os comentários.
O primeiro dia do seminário, ocorrido na quarta-feira, 5, incluiu ainda um debate em torno dos direitos autorais na internet. Uma das propostas é o uso das licenças do Creative Commons, caso de algumas fotos publicadas no site Flickr, como ferramenta para o manejo de conteúdo na internet. Pedro Less, gerente de assuntos governamentais e de políticas públicas do Google Latinoamericano, disse que a autoregulamentação é importante, mas que é essencial também uma legislação equilibrada. “É necessário preservar os direitos do autor, mas também é preciso fomentar a criação. Na web 2.0, os usuários se converteram nos principais provedores de conteúdo na rede”, comentou.
Nesta quinta-feira, 6, o seminário prosseguiu com mais uma rodada a respeito do tema “Liberdade ou controle: o que fazer com os conteúdos produzidos pelos usuários”. Um dos debatedores, Jean-François Fogel, do Le Monde, disse que os veículos precisam se reinventar e encontrar seu caminho para atuar com relevância na internet. O Le Monde criou o Le Post, um site que funciona “ao lado” da página online do tradicional jornal francês. O Le Post, lançado há um ano, conta com intensa participação do usuário. As notícias enviadas pelos internautas são checadas pelos jornalistas do site.
Outra experiência é do site de informações Soitu, que foi criada pelo espanhol Gumersindo Lafuente. Os usuários são remunerados em 20 euros quando tem notas ou posts multimídia selecionados pelos jornais da casa, que ganham destaque na página. O site entrou em operação total neste ano. Segundo Lafuente, há 400 pessoas que contribuem regularmente com o Soitu. A empresa conta com 38 funcionários, sendo 25 jornalistas e 8 especialistas em tecnologia.
Além disso, um painel discutiu a monetização e os dilemas éticos da atividade jornalista na internet, com participação do editor do clarin.com, Marcelo Franco. Essa palestra contou ainda com Bruno Patiño, diretor da escola de jornalismo de Sciences-Po, em Paris.
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*A jornalista Lena Castellón viajou a Bogotá a convite do Google.
Matéria publicada em 07/11/08 no Meio & Mensagem Online.
Sobre a importância do estágio
Aqui na redação de IMPRENSA costumamos abrir vagas para estagiários. Desde que assumi o Portal, tenho tido sorte em minhas escolhas. Embora tenha o costume de fazer testes de escrita, entrevistas e análises de currículo, a seleção nem sempre tem como critério principal o melhor texto ou experiências anteriores. Às vezes, critérios um tanto subjetivos, por assim dizer, acabam tendo mais peso. Vou tentar explicar melhor.
Quando era estudante de Jornalismo, logo no primeiro ano, nas primeiras férias que tive na faculdade, recebi uma oportunidade muito bacana de um amigo de minha família que mantém um jornal diário em minha cidade natal, Poços de Caldas (MG). O nome do jornal é Folha Popular e meu incentivador se chama Demilton Vacarelli.
Na ocasião, em 1999, eu nunca havia posto os pés em uma redação e tinha um texto bem cru, viciado pelas freqüentes redações do Ensino Médio e pelas preparações para o vestibular. Resultado: redigia matérias de página inteira, sem nenhuma retranca, embora tivesse perfeição lingüística, ou seja, sempre soube escrever Português.
Com o tempo, acompanhando o funcionamento do jornal, percebendo as nuances da escrita, vendo o trabalho dos mais experientes, aprendi muito. Como o jornal em que fiz meu primeiro estágio não era grande, tive a oportunidade de acompanhar todas as fases de produção e conhecer de perto as características de cada editoria: geral, política, polícia, entretenimento, esportes. Isso, certamente, fez uma enorme diferença em minha vida quando entrei, de fato, no mercado de trabalho. Cheguei sabendo a realidade das empresas e sem as fantasias que costumo flagrar nos estudantes.
Isso me faz defender o estágio com unhas e dentes. É indiscutível a diferença do recém-formado que já passou por estágios para o que não passou. Entendo as razões trabalhistas que levam os Sindicatos de Jornalistas a irem contra a prática, já que muitas empresas colocam os estagiários para realizar o trabalho de jornalistas formados por valores irrisórios. Mas não podemos ignorar os benefícios que um estágio pode trazer ao estudante.
Volto então, aos critérios subjetivos de que falava antes. A primeira coisa que olho, é claro, são os currículos e os que me chamam mais atenção são os mais diretos, sem embromação, sem obviedades e sem erros de Português. Já recebi muito currículo de estudante que aguardava “ancioso” minha resposta. Ou que não tinha “esperiência” anterior, mas “muito boa vontade”. Por fim, na entrevista, percebo a vontade, a dinâmica, o quão aquele estudante quer passar por aquela experiência. Já escolhi pessoas sem nenhum estágio anterior, com um texto não tão “redondo”, mas que conheciam o veículo e tinham na ponta da língua algumas matérias lidas. Pode até ser ensaiado, mas impressiona.
Falei mais de uma vez nesta coluna sobre a importância de se saber escrever o Português. Parece piada, mas é impressionante o número de erros e de absurdos que estudantes de Jornalismo são capazes de escrever. Fora os descritos acima, muitos outros, desde separar com vírgula sujeito e predicado, até não fazer a menor idéia do emprego de crases e afins. Isso é grave, porque prova que o futuro jornalista sequer lê. Erros assim raramente não cometidos por quem tem o mínimo hábito de leitura.
Portanto, caso você seja candidato a alguma vaga de estágio, preste atenção nesses toques e aproveite cada oportunidade que tiver para melhorar de seu texto. Como? Comece, pelo menos, a ler os jornais do dia. Quais as manchetes de hoje dos principais jornais do país? Caso você não saiba responder ao menos uma, corra. E corra mesmo! O mercado profissional não perdoa a desinformação e o desinteresse.
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Considerações de Thaís Naldoni que é jornalista, graduada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Com passagens pela Folha Online e Sportv, também atuou como repórter e secretária de redação da Revista IMPRENSA.
Publico aqui porque são informações relevantes para a minha carreira e também de meus colegas.
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